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Experiência 1.0 Beta Hay cosas conocidas Entre o conhecido e o desconhecido temos portas, estampa o grafite em Córdoba, Argentina. As palavras na parede indicam a porta como passagem, caminho entre o conhecido e o desconhecido. No percurso linear da leitura, somos conduzidos ao desconhecido. Na vídeo-instalação interativa Marginalia 1.0 Beta, a frase é espaço a ser descoberto e produzido pelo público. A vídeo-instalação interativa Marginalia 1.0 Beta é um projeto concebido por André Mintz e Pedro Veneroso, em 2008, para o Festival Conexões Tecnológicas, promovido pelo Instituto Sérgio Mota. Dirigido a estudantes da graduação e recém-graduados, o festival contou com professores de diversas universidades do país na indicação dos concorrentes. Marginalia 1.0 Beta foi o vencedor de 2008. Desde então, a dupla de criação ampliou seu campo de trabalho e, hoje, além de dar continuidade à pesquisa em arte e tecnologia, coordena o Marginalia + Lab, laboratório de ensino e investigação que abriga e apóia projetos de outros criadores. Marginalia 1.0 Beta é a tradução do olhar de uma geração formada sem preconceito, sem lastro de sistemas formais consolidados. Geração in-formada por referências acadêmicas e, principalmente, pela busca, pela exploração do desconhecido, sem objetivos imediatistas. Estou me referindo à internet e à computação de uma maneira geral. Toda e qualquer percurso cognitivo pressupõe o desconhecido e a invenção, a diferença de procedimentos da geração aqui representada por André Mintz e Pedro Veneroso é o aspecto lúdico da mesma, é a constituição lenta e gradual de um repertório técnico a partir do enfrentamento paulatino dos problemas encontrados no percurso. A navegação na internet é uma metáfora do processo de criação destes jovens e de sua geração. Em trajetórias de exploração e conhecimento do meio não há necessariamente um fim a priori a ser alcançado, alguns trabalhos podem ser o resultado da exploração de programas e scripts de programação sem fins imediatos, pequenas revelações do caminhar são conquistas. Algo como um amador, uma espécie de Dr. Pardal de final de semana, reinventando seus gadgets a cada novo encontro com o prazer de realizar. Esta fala pode parecer idealizada e desconsiderar as dificuldades encontradas, mas, com esse tom, procuro enfatizar a presença generalizada de uma ecologia cognitiva do inventor, no processo de navegação na internet, que é transferido para outras esferas da vida, que está no de uso de programas disponíveis na rede. Esse processo não é privilegio de uma geração, mas nela é dominante, é mais comum o enfrentamento inicial dos problemas de maneira lúdica. Se, no confronto com as dificuldades, o realizador se vê sem alternativas para solucionar questões do projeto inicial, há, nos grupos de discussão, o compartilhamento de experiências de outros jovens pesquisadores/realizadores. Códigos e scripts abertos estão disponíveis. A programação do trabalho Anamorfoses Cronotrópicas, de André Mintz, por exemplo, foi disponibilizada na rede e posteriormente apropriada por diversos realizadores para distintos fins. Voltando à proposta da instalação interativa Marginalia 1.0 Beta, ela propõe como experiência a exploração de um dispositivo para o encontro da frase: “Hay cosas conocidas, y cosas desconocidas, y en medio estan las puertas”. Em uma sala escura, a tela negra guarda a frase como um segredo. O mesmo só será revelado pelo toque do feixe de luz de uma lanterna. Cabe ao público atingir a tela com a luz e, assim, pequenos pedaços das letras ganham visibilidade, mas o todo nunca chega a se constituir. Temos acesso a partes das frases, a leitura do todo exige paciência, a imagem vem à tona lentamente e em fragmentos. É pela somatória das letras e palavras que se alcança o enunciado completo. A obra é produzida pela manipulação da lanterna. O dispositivo, como um todo, é o articulador, ao mesmo tempo, da experiência de produção da obra por sua presentificação e pela interdição representada por um muro que, historicamente, abrigou manifestações públicas contra o governo. Percorre-se o trabalho com um objeto usado por espiões e detetives, ao invadirem espaços. A lanterna fornece pequena e discreta luz, a mesma discrição dos grafiteiros, ao estamparem sua frase emblemática, ao lançarem o convite para se cruzar a porta entre conhecido e desconhecido. A montagem de dispositivos é considerada por Anne-Marie Duguet como um paradigma do vídeo, elemento distintivo em relação ao cinema. Simultaneamente máquina e maquinação, os dispositivos, segundo Duguet, visam promover efeitos específicos. Este agenciamento das ‘peças de um mecanismo’ é à primeira vista um sistema gerador que estrutura a experiência sensível cada vez de uma forma específica. Mais do que uma simples organização técnica o dispositivo coloca em jogo diferentes instâncias enunciativas ou figurativas, articula situações institucionais como processos de percepção (p. 21). Marginalia 1.0 Beta, como já dissemos, emula os procedimentos de investigação do algoz de perscrutar o revolucionário, o contestador, fazendo o público experimentar seu lugar. Transforma a produção da obra em processo de busca. Digo produção, pois, a partir do encontro com as palavras e com a frase, a obra ganha vida e começa a existir, até então ela é potência à espera de ativação. Ela é produzida por cada espectador, cuja experiência é única, em função de suas escolhas, ao percorrer o espaço negro da tela. O tempo gasto em cada lugar e o sentimento experimentado pela revelação da aparição da imagem também configuram uma obra singular, uma navegação única. Tive vontade de ler a frase, a mesma não se consolidava. Como estava só no momento do encontro com o trabalho, usei mais de uma lanterna para ter a totalidade da frase, mas, mesmo assim, ela não vinha, a escala da tela e das palavras não permitia a formação do todo. Os autores ofereceram a incompletude em termos de representação visual. Se havia um todo, relacionava-se ao mecanismo de espiar, de viver a revelação de partes da parede da imagem de Córdoba. Acionavam-se instituições políticas e estéticas, ao se varrer a figura pela passagem do feixe de luz da lanterna. O protesto e sua repressão se mantinham latentes, à espera de agentes para existir. A inquietação solicita atitudes. O objeto não chega a se constituir. O sujeito varre a imagem buscando a completude do sentido. Este nunca se completa também. Ele está no ato de varredura, ele é ação estética e política. Estamos diante da presença, somos instados a preencher de sentido o muro. É no encontro entre sujeito e objeto, ambos devir, que acontece Marginalia 1.0 Beta. A frase, em sua materialidade, nunca chega a se apresentar, experimentamos uma modalidade de encontro no qual, se há um sentido, ele emerge da situação, da interação, da falta constituída no encontro. É a noção de presença que se consolida. Para Jean-Luc Nancy, trata-se de algo que emerge e nunca para de emergir (p. 20)[1]. O que emerge não é necessariamente o sentido, pelo contrário, no caso, é o desafio de um experimento sem a revelação de sua completude, de um slogan ou contra-slogan à manifestação de rua. Experimenta-se a busca de sentido, experimenta-se o desejo de completude da frase, desejo este alcançado lentamente pela luz. Ela é a passagem virtual, uma espécie de porta de mão dupla entre o conhecido e o desconhecido, como sugere a frase. A luz não garante a iluminação sobre o caminho a ser perseguido, ela permanece como presença, como algo que traz texturas, pedaços de cor-palavra, parede entregue à exploração. Em seu diálogo com Jean-Luc Nancy, Hans Ulrich Gumbrecht problematiza a interpretação como única via de acesso ao mundo, especificamente aos textos. A noção de presença vai designar uma situação permanente de experiência, uma maneira de acesso aos objetos, ao mundo empírico, não baseada na dedução conceitual, mas no encontro. O enunciado só existe em ato, na enunciação. Está associado à produção de um tempo e um espaço constituídos no e pelo momento do encontro do público com o dispositivo, do convite à exploração. Enfim, a experiência supera o paradoxo da revelação incompleta, a representação sucumbe diante da emergência da falta, diante da presença. 1. Citada por Hans Ulrich Gumbrecht em A materialidade da teoria. In: Corpo e forma. voltar ao topo REFERÊNCIAS Duguet, Anne-Marie. Dispositifs. In: Déjouer l’image. Créations életroniques et numériques. France: Éditions Jacqueline Chambon, 2002. p. 13-41. Gumbrecht, Hans Ulrich. A materialidade da teoria. In: Corpo e forma. Ensaios para uma critica não-hermenêutica. RJ: Ed Uerj, 1998. voltar ao topo SOBRE A AUTORA Patrícia Moran: doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, professora do Curso Superior do Audiovisual na ECA-USP. Na direção e criação audiovisual realiza pesquisa de linguagem em diversos meios explorando as possibilidades de jogos entre gêneros. Prepara o lançamento do seu primeiro longa-metragem, o filme de ficção Ponto Org. Seus documentários, vídeo-artes e ficções foram exibidos e premiados em mostras e festivais nacionais e internacionais entre eles destacamos: Maldito Popular Brasileiro: Arnaldo Baptista; Clandestinos; Plano-Seqüência; A plenos-pulmões. Desenvolve há alguns anos a pesquisa A metáfora dos sentidos, sobre a poética de projeções em tempo real no geral e dos VJs em particular. voltar ao topo |
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