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Arte e Tecnologia?
Roberto Andrés

Uma projeção com bolas coloridas que a silhueta do público pode segurar e arremessar para cima; luvas metálicas que tocadas acionam mutações em personagens de um conto; um grafite digital acionado por gestos e projetado no ambiente; uma sobreposição de pulos dos visitantes de uma exposição; um software que gera desenhos randômicos para design de roupas; uma luz que se acende quando duas mãos se tocam; um registro sonoro da cidade que gera imagens em movimento; a navegação em uma multimídia pelo contato da mão com a água; sons acionados pelo toque em pedaços de Bom Bril; uma música que se constrói a partir de uma câmera escaneando uma pintura.

A produção artística recente denominada ‘tecnológica’, no contexto brasileiro, parece abarcar um grande matiz de estratégias e procedimentos, inseridos, porém, quase todos, em uma linha geral que toma ‘tecnologia’ basicamente como computadores ligados a processadores de input e output. Embora diversa nos meios e no conteúdo, a estrutura das sentenças se repete: um som que gera uma imagem; uma ação que faz girar um motor; um comando que produz desenhos; uma imagem que gera um som.

Por um lado, a restrição da ideia de tecnologia a ‘tecnologia da informação + processadores externos ligados a sensores e atuadores’ elimina outras possibilidades de experimentação tecnológica – quantas outras tecnologias ficam fora desse escopo? Por outro, certo deslumbre com as tecnologias recém-descobertas (que, muitas vezes, de meio passam a ser fim) ofusca possibilidades mais promissoras de inserção social, cultural e política.

_ elogio

(Antes que se iniciem os mal-entendidos: escrevo aqui como crítico e ao mesmo tempo objeto da crítica, já que me insiro no grupo que vem atuando no campo. Se a crítica for severa, é autocrítica. Se for branda, o elogio é aos colegas. Assim nos aliviamos todos do papel temerário e controverso do ‘crítico externo’ que faz seus juízos finais, provocando ou o ódio ou a adoração dos ‘artistas’.)

_ fogo

O homem primitivo, esse ser mítico, tinha um primo chamado Delcir, o esteta. De fato, foi Delcir quem achou primeiro um galho seco em brasa depois de uma trovoada. Desde então, passavam os dias às voltas com pedaços de madeira, pedras e raios, na duvidosa empreitada de reproduzir fagulhas. Numa tarde fria de primavera, quando estava sozinho na floresta, Delcir realizou o milagre: atiçou fogo em uns gravetos secos – e escondeu a descoberta. Daí para começar a brincar (sempre escondido) foi um pulo. Acender e apagar o fogo, ver sua chama subir, mudar de cor, queimar uma folha e de repente sumir. O vermelho, o amarelo e o azul, flutuantes e camaleantes. Nesses dias, apesar do progressivo domínio técnico do fogo, Delcir continuava a dormir no frio, agarrado a um manto de lã, sonhando com as brincadeiras fátuas do dia seguinte.

Bastou um cheiro de fumaça sem trovões, enquanto caçava na floresta, para que o homem primitivo descobrisse os segredos do primo. Passou então a observar Delcir de longe, anotando todos os seus procedimentos, com desenhos ilustrativos e descrições metodológicas. Produziu então o primeiro manual técnico de produção de fogo. No clã, começaram a acender fogueiras para esquentar as noites, assar a carne e espantar os animais. Também, mais tarde, para controlar a floresta que se alastrava sobre o território, fundir o ferro, construir computadores e aviões.

Lamentando a banalização de sua descoberta, a pueril transformação de um elemento artístico refinado em utilitário de massa, Delcir abandonou as matérias do fogo e foi procurar outros assuntos.

_ maçã

Desenhávamos interfaces interativas instigantes, inovadoras, descoladas. No início para CD-ROM, depois para a internet. O cursor que desaparecia, que virava um quadrado preto, on rollover, on rollout, as possibilidades de acesso a um conteúdo por meios não convencionais, explorando recursos gráficos e de navegação. Primeiro o Lingo, depois o ActionScript. Acompanhávamos e contribuíamos com o nascimento e o desdobramento de uma cultura cibernética refinada, apostando na qualidade da interface gráfica como lugar prioritário da cena contemporânea.

Acontece que em paralelo a todos os webdesigners, webartistas e designers multimídia engajados nesta pesquisa, trabalhavam os designers e engenheiros da Apple. Rasteira. O iPhone (e agora o iPad), com interface touchscreen sutil, intuitiva e inalcançavelmente bem construída, joga o conteúdo das páginas de internet para um segundo plano com muito mais padrão que inventividade. Não só pela incompatibilidade técnica ainda não resolvida entre iPhone e ActionScript, mas principalmente pelo fato de que os principais recursos de interação estão ligados ao sistema operacional, em que não há mais cursor. O movimento de um dedo passa a página do navegador, troca a foto, os dois dedos rolando juntos dão o scroll movendo-se separados fazem o zoom, giram a imagem, etc.

No maravilhoso mundo touchscreen do iPhone, a parte inventiva da interatividade já está ‘resolvida’, devolvendo às páginas a estaticidade impressa da qual elas derivam. As páginas de internet, filhas do livro, tiveram uma infância acanhada, uma adolescência de perambulação pelos movimentos fascinantes do Flash e, na idade adulta, retornam resignadas para a estaticidade do papel. Web design voltou a ser design gráfico.

Parece que quem quiser ser artista-multimídia terá de migrar para a linguagem operacional dos softwares e plug-ins. Que se aproveite para pensar o sentido dessas interfaces, cuja perfeição fluida, quando desprovida de ‘para quê’ mais próspero, é também uma via de acesso ao colorido feliz do tédio.

_ ferro

Qual não devia ser o encanto daqueles arquitetos com as possibilidades plásticas do ferro fundido! Torcer, esticar, dobrar, juntar. Fazer maçanetas, guarda-corpos, corrimões, escadas, vitrais, bancos, mesas, cadeiras, decoros de fachada – tudo no melhor estilo Art Nouveau. Impressiona o depuramento estético, os cuidados no design e o refino daqueles artífices inteiros, comandando equipes de competentes artesãos nas matérias do ferro, do vidro, da madeira.

Mas um dos capítulos mais significativos que escreve o ferro na história da arquitetura é justamente aquele em que ele se esconde dentro dos pilares e vigas. O concreto armado que permitiu abrir as paredes das casas, realizar as tais janelas em fita de Le Corbusier, mas, principalmente, todas as fachadas envidraçadas dos melhores e dos piores edifícios nos quatro cantos do planeta.

A barra de ferro que sai retorcida da fachada e se esconde em meio a uma massa pastosa de cimento, areia e pedras: eis o salto arquitetônico de um século para outro – na mesma época em que os arquitetos do Art Nouveau exploravam o ferro fundido com destreza e engenhosidade em seus aspectos plásticos e de design.

_ youtube

Já na década de 80, o filósofo Vilém Flusser anunciava o aparecimento do YouTube, pois, quando criticava o funcionamento unidirecional da televisão e seu aspecto fascista e totalitário, propunha como contramodelo que as televisões funcionassem como telefones: dialogicamente. Seu raciocínio simples e claro percebia que, enquanto no sistema televisivo a programação era controlada por alguns poucos, na telefonia qualquer um podia chamar e receber, podia ser ativo ou passivo. Uma televisão funcionando como telefone parecia ser, naquela época, um sonho improvável de libertação, de escape ao controle, de uma sociedade com mais autonomia e diálogo.

Interessa pensar que, cerca de 20 anos depois dos escritos de Flusser, quando um grupo da Califórnia criou o YouTube, não o fez por nenhuma novidade técnica. Todos os requisitos técnicos para se criar um site de compartilhamento de vídeos já existiam havia alguns anos. Um dos inventos mais revolucionários da década que se acaba não nasce junto de uma revolução técnica, mas é fruto da sua exploração perspicaz, ou, nos termos de Flusser, “de injetar valores nas formas emergentes.”

O YouTube foi criado por três ex-funcionários da PayPal, um designer e dois programadores, a partir da vontade, segundo a história que se conta, de compartilhar o vídeo de uma festa com amigos. Pena Flusser não ter vivido para ver três funcionários (aqueles que giram em torno do aparelho) dobrarem o sistema com uma revolução tão simples quanto radical, que dá reviravolta na relação da sociedade com as imagens que a programam.

Ora, “injetar valores nas formas emergentes”, não é este o papel da arte? Os criadores do YouTube, não seriam eles os grandes artistas deste início de milênio? Numa espécie de land art cibernética, não cabe pensar o YouTube como uma intervenção na paisagem social e cultural, um muro de Berlim (ou de Israel) às avessas que muda o sentido dos cabos dos televisores e faz vídeos serem telefonáveis?

_ gelo

Convém lembrar os ciganos chegando a Macondo com inventos mirabolantes que os habitantes locais pagavam cinco cruzeiros para ver. Primeiro um ímã enorme, que Melquíades usava para arrastar pelas ruas uma barra de ferro; depois a lupa, possibilidade de acender fogo pela luz solar; e finalmente a máquina de gelo, que o capitão Aureliano Buendía, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, recordaria pelo espanto que lhe causou aos cinco anos de idade.

Apesar da aplicabilidade latente, os inventos não eram tomados como bens sociais ou culturais, mas como o próprio atrativo, repleto de deleite, espanto e fascínio, que alvoroçava a cidade e rendia dividendos para os ciganos. Naquela Macondo pré-moderna, essa condição de deslumbre só se tensionava pelas tentativas mal-sucedidas de José Arcádio Buendía de transformar os inventos puros em tecnologias para o progresso social ou a fortuna pessoal (o ímã transformado em ferramenta de busca de ouro; a lupa como máquina solar de guerra; o gelo como material construtivo de uma cidade austera, reluzente e maravilhosa).

José Arcádio Buendía, esse quixotesco anti-herói da engenharia, foi por muito tempo o único habitante da cidade a vislumbrar naqueles inventos possibilidades de transformação social, enquanto os outros o taxavam de louco pelas suas empreitadas alucinadas e se regozijavam com a maravilhosa mágica dos ciganos.

_ barco

“O transcendental histórico está à mercê de uma viagem de barco”, escreveu Pierre Lévy já na década de 90, cerca de cinco anos depois da publicação, por Vilém Flusser, do seu Universo das imagens técnicas. Ambos analisam o papel político e transformador da tecnologia, vertendo o pensamento para a invenção da agricultura, da escrita, da imprensa, da fotografia, etc., e as alterações radicais por elas provocadas nos modos de relação das sociedades. (Poder-se-ia repisar aqui a revolução do YouTube, obviamente como ramo da revolução mais ampla trazida pela internet, no que ela tem de democratização da informação e da comunicação: apenas por se estruturar em rede ao invés de árvore, altera os modos de relação com o conhecimento e com a sociedade, com consequências que apenas começam a se esboçar.)

Para Flusser, o revolucionário contemporâneo não grita nas ruas com pôsteres do Che Guevara (pois seus berros são captados pelo sistema e compõem o espetáculo midiático que se quer romper), mas interfere subversivamente no universo da técnica – injeta valores nas formas emergentes. Caberia pensar, mais uma vez, no quanto a arte pode contribuir injetando valores nas tecnologias que aparecem, a partir de uma perspectiva política concreta.

Este texto não quer terminar com uma moral. Sua fragmentação estrutural é justamente uma tentativa de olhar múltiplo sobre a relação entre arte, tecnologia, política e sociedade. Sem querer negar a inclinação em prol de uma atuação conjugada (criando uma espécie de artistanerdrevolucionário), prefere-se pensar esse ponto de vista como mais um entre outros. O breve inventário conclusivo deve ser tomado, portanto, menos como panaceia do que como contraponto à cena atual da ‘arte e tecnologia’ no Brasil.

Sites para articulação de caronas e para hospedagem colaborativa; a construção de uma rua de pedestres ativada pelo Facebook; um site de compartilhamento de receitas de transgressões urbanas; um site que envia e-mails para o senador José Sarney e os armazena em uma lista pública; um site para que a população vote em projetos de lei em tramitação na câmara; uma orquestra sinfônica global articulada pelo YouTube; megafones instalados nas cidades berram mensagens enviadas por qualquer um pela internet.

_ livros

Cortázar, Julio. O jogo da Amarelinha. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Garcia Marquez, Gabriel. Cem anos de solidão. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro: Record, 1998.

Flusser, Vilém. O universo das imagens técnicas. Elogio da Superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

Levy, Pierre. As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.


SOBRE O AUTOR

Roberto Andrés é mestre em arquitetura, associado ao escritório Superficie.org, professor da UFMG e editor da revista PISEAGRAMA.

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