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Sobre Es;Pro Modula-se o espaço; a sequência de elementos que, dispostos de forma heterogênea, dá origem a imagens híbridas, fruto do cruzamento de duas ou mais delas. Tendo sua gênese em uma pesquisa tipográfica em torno do poema-processo empreendida em 2007 por Vicente Pessôa cujo resultado foi a criação da fonte Processual, Es;Pro é decorrente de um projeto que desde então assumiu distintas facetas, algumas das quais foram ampliadas dando origem a outros projetos, outras se mantiveram como pesquisas em processo. O grid que define a fonte Processual – uma matriz de tamanho uniforme e conformações distintas – funciona como uma espécie de matriz de pixels que, quando organizada sequencialmente, dá leitura a textos e imagens. Es;Pro parte dessa mesma base; a matriz de pixels neste caso extrapola a bidimensionalidade. Tendo origem no cruzamento dos pixels de dois signos (imagéticos ou textuais) em alto contraste em um espaço tridimensional, o software desenvolvido para mediar esse sistema produz uma espécie de escultura virtual na qual o visitante pode derivar, alterando seu ponto de vista em relação à estrutura e, consequentemente, modificando a perspectiva pela qual ele entende a mesclagem de dois signos. Existe na contraposição de dois signos em Es;Pro, uma certa relação de paradóxo entre os termos escolhidos, um em oposição ao outro em um confronto mútuo, de forma que se potencializam as estruturas dialéticas, criando um estrato de significação que resulta do choque entre uma imagem e outra, um signo e outro. Somente de dois pontos de vista o signo é lido como inteiramente como tal; os pontos de vista intermediários de rotação da estrutura correspondem à interpolação do processo de mesclagem próprio de Es;Pro e refletem os estágios da transfiguração de um signo em outro. Partindo da modulação do espaço e da intersecção de formas bidimensionais, Espaço;Processo gera formas tridimensionais ambíguas, acessíveis ao observador por meio de interfaces digitais ou objetos construídos. modulação, síntese formal, tridimensionalidade, grafo-escultura. * para ler ouvindo (várias vezes seguidas): Phonic Tiles; Eric Satie - http://is.gd/b0vTi Es;Pro Como resultado da pesquisa empreendida em torno do Poema-Processo, movimento literário brasileiro que buscou ressignificar os atos de escrita e leitura do texto poético, foi projetada, em 2007, a fonte tipográfica Processual[1]; devido à concisão de seu desenho, cada caracter significa duas ou mais letras, favorecendo a construção de textos com dois ou mais sentidos de leitura.
Tabela comparativa Poesia x Poema retirada de Processo linguagem e comunicação - Wlademir Dias Pino Tomando como parâmetro de análise as ideias fundamentais do Poema-Processo – inauguração de processos informacionais a cada nova experiência e consumo da informação gerada [2] –, é possível constatar que a diagramação de textos escritos com a Processual, ainda que feita de modo aleatório, tende para a geração de poemas físicos e dependentes da participação do leitor para constituição de sua forma final.
Poema; 2007 Posteriormente foram transpostas para ambientes tridimensionais digitais palavras escritas com estas letras, dando origem a animações que, ressaltando a ambiguidade da forma tridimensional, intrigavam os observadores, a ponto de pensarem que haviam sido enganados por um truque visual.
Love/Hate, 2008 A experiêcia supra-citada, e aquela adquirida ao longo do projeto Superfície-Marca [3], acabaram por estabelecer o entorno ideal para o início de Espaço;Processo, tendo em vista que ambos trabalhos são voltados, desde o início, ao desenvolvimentos de módulos, estruturas modulares e à construção de modelos de interação entre os módulos.
6 arranjos, 1 módulo, 2007 Visando à automatização do cruzamento de palavras escritas com a fonte Processual, são de janeiro de 2009 os primeiros sketches [4] do sintetizador. Inicialmente este dependia de um input matricial manual para aglutinar, em uma mesma forma, duas palavras de extensão similar. Ao longo de todo o primeiro semestre desse ano, foram estabelecidos planos para a criação de um software que permitisse a aglutinação de dois textos diferentes em uma mesma forma tridimensional, bem como sua percepção geral, a manipulação através de uma interface e, consequentemente, a observação dos diferentes estágios entre as formas das palavras. Em agosto de 2009, Espaço;Processo foi inscrito no edital para composição do projeto Marginalia Lab. A proposta inicial – desenvolvimento de um software para a construção de formas tipográficas ambíguas através da modulação e preenchimento ordenado do espaço – foi modificada antes mesmo da divulgação dos resultados do edital, quando os desenvolvedores do projeto perceberam que o mesmo princípio de interseção espacial resultaria em um aglutinador de diferentes tipos de imagens, não apenas de palavras.
Es;Pro - como fazer Em setembro de 2009, o objetivo do projeto passou a ser o desenvolvimento de um software que sintetizasse quaisquer formas planares em uma forma tridimensional a partir de uma mesma unidade básica, permitindo que imagens gráficas, tipográficas ou fotográficas fossem moduladas, espacializadas e recompostas, quando observadas de um determinado ponto de vista. Ao permitir a aglutinação de diferentes tipos de imagem, Es;Pro torna possível a analogia entre módulos e átomos, partículas qualitativamente iguais, teoricamente constitutivas de toda e qualquer matéria [5]. Assim, do mesmo modo que, obedecendo a padrões de interação, o carbono presente no corpo do leitor já foi parte de um tomate e poderá, um dia, fazer parte de um azulejo, um módulo poderá compor a imagem do leitor, de uma lata de sopa de tomate ou da estrutura molecular do carbono.
A primeira forma, uma homenagem a Vilém Flusser, é o cruzamento de Lascaux e Latinha. É também possível a analogia entre a forma gerada e uma música ou poema, já que o diagrama tridimensional gerado pode ser visto como uma espécie de partitura a ser preenchida pelo executor; interpretando adequadamente a partitura, aquele poderá organizar um novo objeto, não exatamente idêntico à forma originária – ideal –, mas derivado dela – como são as execuções de uma sonatina ou as leituras de um soneto. Diferentemente de uma escultura figurativa, em que a forma possui continuidade, na medida em que representa formas tridimensionais contínuas e o ato de observá-la inaugura uma experiência temporal focada nas diferentes aparências dessa forma contínua, a forma gerada através de Espaço;Processo parte de duas representações bidimensionais para a criação de uma forma tridimensional. O que impede que a figuração se dê em termos volumétricos é justamente o que permite a convivência de formas redundantes ou conflitantes numa mesma forma. Assim, a gradual mudança entre seus diferentes estágios faz com que a experiência envolvida em sua observação seja mais a da percepção da mutação de uma forma em outra que a da observação das diferentes aparências de uma forma – o que não exclui, obviamente, este tipo de observação. A respeito do conteúdo das imagens cruzadas, ainda que ele seja livre, a tendência é que se norteie por relações de redundância e contraposição temporal, formal, funcional e temática, o que inclui [árvore/semente], [Feto/Defunto], [Hitler/Obama], [cérebro/coração], [Darwin/Macaco], [Seu Pai/Sua Mãe] e qualquer outro casal de namorados, ou ex.
Gene; 2010 A etapa do projeto voltada ao processamento e à síntese das formas planares foi desenvolvida sem muitos problemas: em pouco tempo foi produzido um sintetizador que, para cada cruzamento de duas imagens em tons de cinza, gerava uma matriz tridimensional com a indicação dos espaços a serem preenchidos pelos módulos. Felizes e sorridentes, os desenvolvedores do projeto voltaram sua atenção aos modos de exibição e puderam perceber que nestes residiam as principais questões conceituais e dificuldades técnicas. Por questões práticas, as primeiras apresentações do projeto foram feitas com o objeto tridimensional exibido em telas e manipulado através de interfaces de rastreamento bidimensional (mouses e trackpads), tornando evidente a necessidade de uma interface que estabelecesse para o observador referências volumétricas: só assim o observador poderia apreender e compreender as formas tridimensionais em sua complexidade. Inicialmente cogitou-se uma exposição de esculturas sem matéria: formas dispostas em um ambiente de Realidade Aumentada e acessíveis ao observador através de celulares com câmeras. A idéia de potencializar o efeito das formas, ao associá-las a um lugar específico, permitindo que o observador as visse de ângulos diversos, a partir da extensão de seu movimento corporal, tinha como objetivo provocar a sensação, ambígua per se, de relacionar-se com um objeto tridimensional ausente, processado em tempo real, imune ao efeito da gravidade e polissêmico pelas características de sua forma... MAS telas móveis apresentaram-se impotentes, em termos de processamento, ou inacessíveis, em termos econômicos, não restando outra opção senão utilizar micro-computadores ligados a telas ou projetores.
Proposta Instalativa; Es;Pro A apresentação de Es;Pro no Vivo Arte.Mov, em novembro de 2009, motivou o desenvolvimento de uma interface que permitisse ao observador manipular as formas virtuais, utilizando um cubo com sensores de rotação e um módulo de transmissão de dados wi-fi, o que fracassou, por conta da precariedade da primeira versão do software. Mais alguns meses de trabalho e uma nova versão foi construída: esta permite, além de uma interação observador/forma mais sofisticada, a mistura instantânea de formas tipográficas através de inputs do teclado. Esta retomada do projeto inicial foi de grande importância, ao lembrar aos desenvolvedores que a mistura de palavras permite uma melhor visualização dos módulos que compõem a forma, o que não ocorre na mistura de imagens. A constatação da diminuição da percepção dos módulos, devido ao limite de resolução de telas e projetores, veio acompanhada pela vontade de materializar algumas das formas geradas e, em seguida, pela frustração nas tentativas de materialização. Es;Pro; arte.mov 2009 Inicialmente foram construídas formas simples, a partir de duas palavras, construidas bloco-a-bloco com papel cartão. Como era de se esperar, a construção de esculturas a partir de imagens inaugurou uma série de dificuldades técnicas, projetivas e econômicas. A começar pela complexidade de um objeto com módulos suficientes para a formação de uma imagem figurativa, passando pelas correções de perspectiva a serem feitas de acordo com a escala, a sustentação do material, a locação de cada um dos 3.000 ou 5.000 módulos, no exato espaço que devem ocupar, o custo do material... chegando ao inspirador número de horas de trabalho necessárias para materializar uma única forma; constatamos, então, que precisamos urgentemente de um mecenas ou, ao menos, de uma encomenda.
Love/Hate; 2010 Estas questões são, no momento, o foco do projeto: se o acesso às formas geradas apresentadas em interfaces planas, como telas e projeções, apresenta insuficiências, mas, ao mesmo tempo, as dificuldades encontradas para a materialização dessas formas não favorecem sua construção, em qual dos modos de exibição os esforços deveriam ser investidos? No primeiro caso, a primeira coisa a se fazer seria o desenvolvimento de uma interface na qual o observador consiga estabelecer uma relação com a forma a partir de seus movimentos corporais num espaço determinado. É também importante que as formas exibidas em telas ou projeções tenham texturas e efeitos de luz mais próximos àquelas experienciadas pelos seres humanos em meio aos objetos tridimensionais reais. Ainda pensando na apresentação através de telas, um objetivo é a criação de vídeo-esculturas através de uma adaptação que permita ao software processar 24 frames tridimensionais por segundo, ou seja, 48 imagens. Essas vídeo-esculturas poderiam servir como base para a produção de vídeos e vídeo-instalações. No segundo caso, a opção mais simples é a produção de cristais gravados a laser: um dos maiores problemas para a materialização de formas resultantes de imagens – a sustentação dos módulos – seria eliminado, já que toda a imagem estaria gravada no interior de uma peça maciça de cristal. Um ponto positivo é a possibilidade de produção de tiragens e a comercialização de esculturas a partir de formas geradas pelo software. Em contrapartida, o tamanho possível de se obter com cristais gravados é consideravelmente limitado. Um dado interessante é que, através dessa técnica, a construção da forma se dá pela ausência da matéria no interior do cristal, gerando uma inversão de forma e contra-forma em relação à original. Poder-se-ia investir na produção de formas de alguns metros de comprimento: provavelmente o impacto destas sobre o observador seria maior que todos os modos de apresentação listados. Em prejuízo desta opção, há os custos do investimento em nanotecnologia. Ainda que indecisos, os desenvolvedores do projeto pretendem, o mais breve possível, disponibilizar o aplicativo para que quaisquer pessoas possam mixar suas próprias imagens e textos, não ideias. E fim. voltar ao topo 1. Fonte desenvolvida por Vicente Pessôa, Tiago Porto e Zed Martins no ano de 2007, selecionada para a 9ª Bienal da ADG (Associação dos Designers Gráficos - São Paulo, 2009), na categoria Poéticas Visuais, e para a Terceira Bienal Latinoamericana de Tipografia (2008) na categoria Fontes de Tela – interfaces digitais –, apesar de sua inscrição ter sido realizada na categoria Fontes Experimentais. 2. Processo: Linguagem e Comunicação - Wlademir Dias-Pino. 3. Pesquisa em design de superfície – Vicente Pessôa, 2006-presente. 4. Sketches em Processing, executados por Pedro Veneroso. 5. Wikipedia. voltar ao topo SOBRE OS AUTORES Vicente Pessôa; nasceu. Espera um dia saber quem é. (pessoa@vicentepessoa.com). Felipe Turcheti; tenta traduzir para linguagem de programação suas conversas com Vicente Pessôa. (mail@felipeturcheti.com). voltar ao topo |
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