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Sobre Deslocamentos
Marginalia Project

Utilizando criativamente recursos tecnológicos de fácil acesso, o projeto de Fernando Rabelo e Sérgio Mendes ultrapassa, em seu processo de desenvolvimento, as diversas tecnologias - hoje tornadas comuns - de realidade aumentada e computação física. Se cada vez mais a interatividade se torna a principal coqueluche de museus e stands promocionais - se cristalizando em formatos que, de tão utilizados nestes contextos, se tornam equiparáveis ao mouse e ao teclado - o projeto destes artistas ganha enorme valor em sua simplicidade tecnológica.

Em um procedimento que já se torna marca da arte e tecnologia no país e, em particular, de Fernando Rabelo, a obra se faz justamente na subversão de interfaces corriqueiras. A pequena rodinha do mouse, utilizada para a rolagem vertical de conteúdo, se torna um sensor de deslocamento que, acoplado a um pequeno computador, aciona o descortinar de imagens criadas pelo artista. Aparatos tecnológicos cotidianos, tornados cada vez mais populares, tem sua funcionalidade deslocada, sem a necessidade de grandes intervenções ou hackeamentos: readymade tecnológico com o mictório de nossos tempos.


Deslocamentos
Fernando Rabelo e Sérgio Mendes


Um monitor/carrinho que exibe imagens enquanto é deslocado.

Sobre a construção de um carrinho-monitor que exibe imagens ao ser controlado pelos visitantes.

O monitor móvel (monimóveltor) pode ser controlado para frente ou para trás, e esse movimento gera uma reação no conteúdo exibido na tela. Deslocado de forma vertical, o monitor móvel cria uma intervenção no solo, chão ou superfície por onde anda. Ele pode mostrar (desvelar) textos, imagens, escondidas na conjugação dos espaços reais e virtuais.


Ready-mades, projetos e alguns conceitos utilizados

Com Duchamp ou Lygia Clark, entre outros, as obras ganharam um significado que é inerente ao material (ou técnica utilizada) na sua construção. Seus objetos participativos produzem percepções que vão além de um bom design ou uma agradável combinação de elementos estéticos. Um objeto, ao ser manuseado, torna-se interativo e desdobra-se em várias formas de interpretação individual.

Segundo Lygia Clark, a percepção não se concentra só nós olhos, mas em todo o organismo sensitivo.

Outro conceito que consideramos importante em nossa reflexão foi o “PROBJETO”, criado por Rogério Duarte, sobre os objetos sem formulação – como obras inacabadas – criados na hora da participação de cada um. Outros valores, também presentes nas obras de Hélio Oticica, expressavam essa forma de criar objetos interativos inusitados.

"Para nós não, parece que a economia de elementos está diretamente ligada à ideia de estrutura, à formação desde o início, à não técnica como disciplina, à liberdade de criação como supra economia, onde o elemento rudimentar já libera estruturas abertas". O conteúdo criado para o protótipo pode trazer toda a metáfora presente nas janelas (windows) do monitor, assim como as presentes na nossa relação com o solo, o chão ou uma superfície.

O deslocamento de informação como símbolo

Os deslocamentos do monitor (tela) móvel são captados pela interface do computador pelos sensores do mouse. Ou seja, os movimentos pra cima ou pra baixo são convertidos em números que movem uma página da web para cima ou para baixo no monitor.

A interface reagirá com o deslocamento físico no mundo real (monitor ligado) e exibirá informações que se modificam no monitor do computador como a rolagem de uma página na WEB. O uso normal do mouse foi reconfigurado num sentido diferente ao usual, ou habitual, fixo pelas utilizações cotidianas. Colocamos o "WHEEL", que é a rodinha de rolagem do mouse, de cabeça para baixo, e isso faz com que o movimento (deslocamento) do objeto físico se transformasse em informação para o computador.

Bricolagem e lixo eletrônico (E-WASTE)

Vivemos em uma sociedade cada vez mais incapaz de recuperar imagens velhas. Compramos um computador dito novo, que se torna velho pelos novos softwares ou novas tecnologias.

O computador, que ajuda no trabalho, em nossa comunicação, na vida, também se torna um vício de consumo e descarte. Bilhões de toneladas de lixo eletrônico são produzidos nessa incessante produção de "novas" tecnologias que somente beneficiam grandes indústrias. Propostas de engenharia reversa, como entender o funcionamento de uma coisa para criar um similar, não são discutidas como propostas de ensino e aprendizado. Somos consumidores não interessados pelo conteúdo, e sim pela embalagem.

A Bricolagem, como técnica de construção de tecnologia local, permite desenvolvimento intelectual, técnico e cultural mais pelo simples fato de "criar" que somente copiar ou comprar um novo aparato eletrônico. Com o intuito de mostrar que é possível criar tecnologias "novas" com acessórios acessíveis, baratos ou mesmo usados, descartados, criamos o monitor móvel, batizado de monimóveltor.

Construção de DESLCAMENTOS 01: monimóveltor

A ideia inicial era deixar um computador portátil com tela giratória (netbook) se deslocar apoiado em duas barras paralelas fixas em uma parede. Através de pesquisas na internet por interfaces similares, compreendemos e estudamos modelos que poderíamos usar como engenharia reversa.

Através desses modelos, procuramos, então, desprender ainda mais o monitor de uma posição rígida, sustentada ainda de forma horizontal como um monitor.

Uma grande referência foi "The Golden Calf", de Jeffrey Shaw, uma vaca criada dentro de um sistema 3D, que somente pode ser visualizada pelo movimento do monitor em cima de uma bancada.

Surgiu, então, a primeira versão de um monitor móvel (monimóveltor) que se deslocava pelo chão, ao ser controlado por uma pessoa.

A tela foi para o chão, fato que proporcionou outros significados tanto estéticos como conceituais. Esta disposição, ainda pouco usual, em se tratando de monitores, caiu bem no projeto, pois também se puderam empregar outros conteúdos relacionados ao piso, chão, solo, etc.

O Mouse WHELL ou barra de rolagem como sensor

Outras dificuldades encontradas no processo de pesquisa foram em relação ao sistema instalado no NETBOOK, um windows CE, muito limitado, que impossibilitou a utilização de mídias, como vídeos e programações avançadas em flash.

A solução para esse imprevisto técnico foi procurar utilizar uma linguagem básica multimídia, e assim chegamos aos navegadores de internet e páginas em HTML. Foi a única forma, software, que possibilitou a visualização de textos e imagens inseridos no código HTML. Também utilizamos o “scrool” vertical da página de internet para criar uma dinâmica visual que acompanha o movimento do objeto (deslocando-se em um espaço, no chão).

Apesar das dificuldades técnicas, contamos com várias conversas a respeito do projeto e suas possíveis interfaces e desdobramentos nas reuniões realizadas pelo Marginália+LAB. Todas as dicas e observações, assim como as referências, foram bem-vindas e fizeram parte do protótipo final.

Materiais utilizados na Construção

- 1 Kit modelix para montagem da estrutura de suporte do monitor e do mouse;

- 1 Computador Powerpack NET-807 para exibir conteúdo em HTML

- 1 Mouse com a interface de scroll (Wheel).

Com pouco conhecimento de eletrônica, foi possível a criação do objeto, porque utilizamos kits de robótica Modelix que são bem intuitivos e organizados para construção de robótica em escolas.

Seguimos alguns exemplos de construção, para, depois, criar a estrutura básica do carro, monitor, móvel. A ideia inicial (a construção via controle sem fio) ficou em segundo plano na elaboração do protótipo. Necessitávamos saber se realmente era possível conciliar o carro móvel com o conteúdo digital.

Protótipo final : monimóveltor

Para exibir os resultados da pesquisa, criamos um protótipo com os materiais citados. O monimóveltor está funcionando bem e tivemos resultados satisfatórios, tratando-se de uma primeira experiência nesse tipo de interface. Claro que ainda se necessitam mudanças, como na parte mecânica, em que colocamos menos pilhas para diminuir a velocidade do deslocamento, com o intuito de visualizar melhor o conteúdo exibido na tela.

Outros detalhes, como o acúmulo de sujeira na rolagem do mouse, foram estudados somente depois do objeto criado e testado com movimento.

Isso foi um grande estímulo, porque materializamos o protótipo que proporcionou testes, análises e uma projeção de desenvolvimento com outros recursos interativos e novas possibilidades de exibir e interagir com conteúdos audiovisuais.

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REFERÊNCIAS

Collins, Nicolas. The Art of Hardware Hacking. Handmade Electronic Music. Routledge, 2006.

Fullan, Scott. Hardware Hacking Projects for Geeks. O'reilly, 2004.

Levy, Pierre. A Ideografia Dinamica. Rumo A Uma Imaginaçao Artificial?. Loyola, 1998.

Plaza, Júlio. Tavares, Mônica. Processos criativos com o meios electrónicos. Poéticas Digitais. Ucitec. 1998.

Rosnay, Joel. O Homem simbiótico. Vozes, 1997.

Lakoff, George. Johnson, Mark. Metáforas da vida cotidinana. Mercado de Letras, 2002.

The Golden Calf by Jeffrey Shaw. http://netzspannung.org/cat/servlet/CatServlet cmd=netzkollektor&subCommand=showEntry&entryId=147953&lang=en

Moving Display. http://www.onomy.com/presskit/images/wall-singapore.jpg

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SOBRE OS AUTORES

Fernando Rabelo: Bacharel em Cinema de Animação e Mestre em Arte e Tecnologia da Imagem na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Possibilidades tecnológicas recriadas de forma reflexiva e crítica, projetadas como gambiarras domésticas comuns, como a palha de aço que aumenta a captação de imagens de TV, ou os inúmeros cabos que compõe a criação de um sistema de projeções panorâmicas e interativas: desse vasto mundo se compõe a obra do artista mineiro, em que convivem animação, ilustração, video, web, projetos educativos, instalações e intervenção urbana.

Sérgio Augusto Mendes Ferreira: Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela FAMIH/BH, Técnico em Eletrônica (CEFET) com Extensão em Análise de Sistemas pela UFMG. Trabalha com autoria de multimídias em projetos como Museu de Artes e Ofícios, Trem da Vale, entre outros. Tem pesquisado e desenvolvido softwares envolvendo interfaces não convencionais. Atualmente é Coordenador da área de Programação do Projeto REPIA (Residência de Pesquisa Interdisciplinar Avançada).

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concepção e realização co-realização patrocínio incentivo
MARGINALIA PROJECT OITOOITO ARTE.MOV LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA DE MINAS GERAIS
apoio
LABMÍDIA GRAFO
Laboratório de Artes Gráficas
Escola de Belas Artes - UFMG
LAGEAR
Laboratório Gráfico para a
Experimentação Arquitetônica
Escola de Arquitetura - UFMG
Instituto Sérgio Motta