início | rss | newsletter | english
08 dez
mudança_Novo site e convocatória aberta

+ mais informações
28 set
interactivos_Inscrições de projetos prorrogadas para o Interactivos? '10 BH

+ mais informações
20 set
interactivos_Últimos dias para inscrição de projetos no Interactivos? '10 BH

+ mais informações
6 jun
labtolab_Marginalia+Lab em Madrid

+ mais informações
17 maio
evento_Exposição, seminário e festa encerram primeiro ciclo de atividades

+ mais informações
10 dez
encontro_Laboratório recebe Eduardo de Jesus

+ mais informações

Sobre Poesia Congelada
Marginalia Project

O sujeito que, munido de cubos de gelo, congela sílabas, construindo signos imprecisos.

Em uma proposta imbuída de características lúdicas, Koji Pereira convida o visitante da instalação interativa Poesia Congelada a empreender uma batalha de pequenas proporções contra as regras internas de seu sistema computacional de criação de poesias semi-randômicas. Semi- por ser somente parcial o descontrole do sujeito. Neste jogo, em sua tentativa de sobrepujar a evolução das sílabas - que se sobrepõem umas às outras rapidamente - buscando encerrá-las em signos, o sujeito é por vezes bem sucedido, e em outras ocasiões se vê à mercê de um fluxo sempre constante que dá lugar à imprevisível ocorrência do acaso.

Essa interface efêmera – o gelo que lentamente derrete respondendo ao toque com as mãos e com a superfície de projeção – é a ferramenta com a qual se constróem escrituras; o lugar do erro, da imprecisão, é o mesmo onde se manifesta o acaso . O vir-a-ser-texto que foge ao controle e sutilmente extrapola os limites do vernáculo apresentando ao visitante pequenas poesias de inspiração dadaísta, resultado de sua paradoxal empreitada em que a cada instante se luta contra e a favor deste sistema.


Poesia Congelada
Koji Pereira, André Veloso e Marcos Paulo Machado


Poesia congelada é uma instalação inspirada na “poesia abstrata” dadaísta. O público é convidado a interagir com a obra utilizando-se de cubos de gelo para intencionalmente congelar as sílabas, formando uma poesia. A obra dessa forma deixa de ser definida por um autor central, ela é apenas uma ferramenta para construção de outra obra; no caso, a poesia com inúmeros significados. A instalação resultante busca contrapor a melancolia da poesia autoral à aleatoriedade de uma arte sem autor, ou de autoria difusa.

Durante o processo de produção e criação da obra, elementos de interação foram revistos, assim como o fluxo interativo, a fim de manter claro para o público o feedback das ações de encostar o gelo no quadro, congelar uma sílaba, etc. Como elemento irônico foi adicionada uma impressora de nota fiscal. Nela os trechos de poesia podem ser impressos e levados pelo público, que contraditoriamente se torna autor daquela poesia.

poesia, arte generativa, arte digital, arte interativa.


1. Introdução

O acaso, parte central da Poesia Congelada, é tema de pesquisa em arte desde o início do século XX. O Dadaísmo foi um movimento artístico surgido na Europa no início da Primeira Guerra Mundial. O Dadaísmo ficou marcado pela exploração do acaso em diversos trabalhos e na denominada “poesia abstrata”. Hans Richter (1993, p. 64), artista que fez parte desse movimento, relata que “o 'acaso' tornou-se nossa marca registrada. Seguíamos a direção que ele indicava, como se fosse uma bússola.” Neste experimento o acaso é parte essencial do processo de construção do significado da obra, através da interação. Neste processo, o observador deixa de ser passivo e torna-se também autor ativo da obra, podendo então participar na construção da poesia. Aqui a figura do poeta romântico inspirado pela natureza e dotado de sensibilidade ímpar é substituído pela aleatoriedade crua de objetos físicos, incontroláveis por natureza. O calor emocional da poesia romântica é substituído pela frieza dos cubos de gelo utilizados para fixar sílabas de forma aleatória, como em um processo mecânico, mas controlado pelas forças naturais. A morte do autor é assim privilegiada, em detrimento daquela figura centralizadora destacada por Barthes (2004).

Durante o projeto, várias melhorias foram feitas no design de interação da obra. No entanto, por se tratar de um projeto fundamentalmente orgânico – que lida com fenômenos físicos do congelamento e derretimento –, o acaso ainda permanece determinante. É impossível saber exatamente quando o contato entre o gelo e a superfície projetada irá “congelar” as sílabas. A aleatoriedade corrobora com o questionamento autoral neste trabalho, nem mesmo o público pode controlar totalmente o resultado.

No projeto final foi adicionada uma impressora de nota fiscal como elemento irônico do processo. Nela as “poesias” podem ser destacadas e levadas pelo público/autor da poesia. A poesia impressa deixa para o público um pouco daquele processo criativo de construção poética com gelo, e o visitante pode levar a sua poesia para casa, numa irônica referência ao autor/poeta/artista que carece de registro físico que documenta sua criação.

2. Processo criativo

Este projeto é fruto de um experimento com novas formas de interação como linguagem criativa. Durante experimentos de interação com objetos físicos, como movimento, calor, vento (assopro), surgiu a ideia de criar uma instalação em que o público pudesse não apenas interagir, mas criar significados através da obra, ao mesmo tempo em que o acaso não permitisse um controle total dos significados.

A primeira ideia que surgiu foi a de criar uma interface que pudesse ser controlada através da temperatura. Fisicamente, o experimento é dotado de uma placa de metal, semelhante a um quadro branco, instalada numa parede, contendo um sensor de calor LM35 instalado por trás da mesma. Esse sensor analógico de calor, ligado a um microcontrolador, o Arduino Nano (ilustração 1), é responsável pela detecção da temperatura. A informação da temperatura é transmitida para um computador pessoal, um notebook Dell Vostro 1400. O computador utilizou o software livre Processing para geração de computação gráfica, resultando em uma série de palavras aleatórias pré-selecionadas. As palavras mudam a cada segundo e apresentam no seu lado esquerdo superior a temperatura atual. Deste experimento foi criado um vídeo de prova de conceito, disponível em www.youtube.com/watch?v=JDEUoGCaAcs

Outro software livre utilizado neste experimento foi o Arduino. Além desses softwares, o projeto engloba ainda hardware livre, com todas as especificações abertas para produção da placa e da montagem dos componentes. Os testes foram realizados com o Arduino Nano, versão compacta do Arduino, que tem como microcontrolador o Atmel Atmega 168. O experimento realizado partiu do conceito de interfaces tangíveis e graspables, procurando utilizar objetos físicos comuns, como dispositivos de entrada e saída. A foto 1 demonstra a resposta visual e a interação do observador através de um copo com gelo.

Resposta visual do experimento Poesia Congelada

3. Projeto final

Durante o experimento, foram observadas melhorias passíveis de ser implementadas para um produto final. A ideia inicial era que houvesse um fim no processo interativo que pudesse ser entendido pelo observador. Dessa forma, após três minutos sem atividade, a instalação geraria uma música a partir das palavras e temperatura das mesmas. Porém, essa ideia foi abandonada frente à possibilidade de impressão contínua de linhas numa impressora matricial. A cada nova linha formada na projeção, uma nova linha seria fisicamente impressa.

Para o projeto final, foi planejado, abaixo da placa de metal, um suporte semelhante àqueles usados para armazenar apagadores de quadros. No entanto, não haveria apagadores na obra e sim cubos de gelos a ponto de se derreterem. No chão, haveria respingos d'água, decorrentes do degelo. Espera-se que o observador interaja com a obra, segurando um cubo de gelo e encostando-a em uma sílaba, que, ao ser “congelada”, forma uma palavra com as demais sílabas. As palavras variam de uma a cinco sílabas.

Durante o projeto, foi observado um problema: a placa permanece fria mesmo após a retirada do gelo. Para resolver o problema de resfriamento da placa, a temperatura de “congelamento” deixou de ser absoluta e se tornou relativa, ou seja, basta que 1 grau seja reduzido para que a sílaba se “congele”. A figura abaixo mostra o fluxo interativo final, em que foi adicionada uma nova variável, o aumento da velocidade de troca das sílabas de acordo com a temperatura.

Fluxo interativo

Outro problema encontrado foi o fato de que a leitura de temperatura é lenta, são necessários alguns segundos para que a temperatura aumente, após a retirada do cubo de gelo da placa. A solução encontrada foi adicionar um fotorresistor, sensor que permite a leitura de luz incidente. Dessa forma, ao passar o gelo sobre o quadro, a leitura de luz fica alterada em consequência da sombra gerada pelo braço do espectador. Com esse novo sensor foi possível dar um feedback imediato para o interagente. A figura abaixo ilustra a montagem final.

Montagem Final

Diante das idas e vindas do projeto, fica clara a necessidade de experimentação quando tratamos de novas formas de interação entre público e obra. Ainda se sabe pouco sobre como esta interação se dará em um ambiente de exposição.

voltar ao topo

REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FITZMAURICE, George W. Graspable User Interfaces. 1996. 89 f. Tese (Ph.d.) - Departamento de Graduate Department Of Computer Science, University Of Toronto, Toronto, EUA, 1996.

ISHII, Hiroshi; ULLMER, Brygg. Tangible Bits: Towards Seamless Interfaces between People, Bits and Atoms. In Proceedings Of CHI'97, p.1-8, mar. 1997. Disponível em: <http://tangible.media.mit.edu/content/papers/pdf/Tangible_Bits_CHI97.pdf>. Acesso em: 5 maio 2009.

JOHNSON, Steve. Cultura da Interface. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

NÖTH, Winfried. Panorama da semiótica de Platão a Peirce. São Paulo: Annablume, 1995.

O'SULLIVAN, Dan; IGOE, Tom. Physical Computing: Sensing and Controlling the Physical World with Computers. Mason: Cengage Technology, 2004.

SAFFER, Dan. Designing Gestural Interfaces. Sebastopol, Canadá: O'reilly Media, 2008.

ULLMER, Brygg; ISHII, Hiroshi. Emerging frameworks for tangible user interfaces. In: IBM Systems Journal, p. 915-931. jul. 2000. Disponível em: <http://tangible.media.mit.edu/content/papers/pdf/ullmer-isj00-tui-framework-pub.pdf>. Acesso em: 7 maio 2009.

RICHTER, Hans Georg. Dadá: arte e antiarte. Tradução Marion Fleischer. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

voltar ao topo

SOBRE OS AUTORES

Koji Pereira: Especialista em Design de Interação e graduado em Belas Artes pela UFMG. Realizou exposições e intervenções urbanas durante os anos de 2002 e 2003. Mais tarde se interessou por arte digital, na qual pode unir seus conceitos de design de interação e arte participando de projetos de performances e instalações. Em 2009 recebeu o Prêmio Interações Estéticas da Funarte.

André Veloso: Bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Desenvolve softwares na área de interação digital, especialmente sistemas que utilizam interfaces multitoque, controles tangíveis e sistemas interativos, novas formas de interação homem-máquina e na aplicação desses paradigmas em sistemas musicais e visuais interativos. Realizou pesquisas acadêmicas nas áreas de Processamento Digital de Imagens e Visão Computacional. Em 2009 recebeu o Prêmio Interações Estéticas da Funarte.

Marcos Paulo Machado: Graduado em Comunicação Social pela Centro Universitário de Belo Horizonte – Uni-BH (2007), cursando pós-graduação em Design de Interação pela PUC Minas. Atualmente atua como freelancer na área de design centrado no usuário e arquitetura da informação focada em aplicações para ambiente web. Presta serviços para empresas como Anima Educação, Plan B Comunicação Digital e Intra Comunicação. Trabalhou como designer de interfaces na área de desenvolvimento de sistemas do Centro Universitário de Belo Horizonte.

voltar ao topo

concepção e realização co-realização patrocínio incentivo
MARGINALIA PROJECT OITOOITO ARTE.MOV LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA DE MINAS GERAIS
apoio
LABMÍDIA GRAFO
Laboratório de Artes Gráficas
Escola de Belas Artes - UFMG
LAGEAR
Laboratório Gráfico para a
Experimentação Arquitetônica
Escola de Arquitetura - UFMG
Instituto Sérgio Motta