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Sobre MartialmentalEX
Marginalia Project

Em uma combinação de artes marciais e música eletrônica, o projeto de Fabiano Fonseca acompanha musicalmente a rotinas de exercícios físicos matutinos, gerando sons e ritmos a partir da movimentação corporal do praticante. Buscando desenvolver instrumentos musicais sob medida para cada exercício, o músico pesquisou diversas alternativas para extrair as informações dos movimentos, se valendo de técnicas que vão desde a utilização de elementos já tradicionais da música eletrônica, como sensores piezo e interfaces midi, até técnicas de visão computacional, mais recentes.

Nesta suite de instrumentos e interfaces, Fabiano criou uma série de protótipos, passíveis de serem desdobrados em uma série de aplicações, entre performances, instalações interativas e mesmo interfaces a la Wii Fit. Em um esforço despretensioso, porém orientado a múltiplas direções, MartialmentalEX explora de forma bem humorada procedimentos de 'luteria eletrônica', descobrindo de forma pragmática os caminhos possíveis a cada passo.


MartialmentalEX
Fabiano Fonseca


Este projeto visa conceber uma estação experimental de performance musical, combinando movimentos corporais com a produção de sons. Está previsto um roteiro que inclua aspectos gestuais da música, a digitalização destes sinais através de sensores e da utilização de sistemas para produção de obras musicais interativas.

sistemas musicais interativos, música e tecnologia, Arduíno, isadora, controladores.


Introdução

Práticas matinais para uma vida saudável.

Foi durante a repetição diária de uma pequena sequência de exercícios físicos matinais que este projeto foi concebido. Exercícios de energização, respiração, alongamentos, práticas de boxe e artes marciais deram origem a uma síntese denominada MartialmentalEX. Para se tornar mais envolvente e cativante, essa rotina carecia de trilha sonora, e foi assim que, durante a composição dessa trilha, pareceu muito adequado deixar um espaço para o próprio praticante poder tocar parte daquela obra musical, enquanto se exercitava, sendo ele musicista ou não.

Iniciou-se, assim, uma grande pesquisa em busca dos instrumentos de controle de música eletrônica disponíveis no mercado, a viabilidade da confecção de novos instrumentos e quais softwares estavam sendo utilizados para maximizar estes recursos, criando novas interfaces e ampliando as possibilidades.

O termo “Luteria Eletrônica” encaixa-se muito bem nesta perspectiva, em que os músicos criam suas próprias interfaces na busca por expressar um gesto individual e uma maneira própria de lidar com a composição e a performance. Sobre este aspecto, o compositor Paul Lansky tece o seguinte comentário:

O projeto e construção de instrumentos se torna, agora, uma forma de composição musical. A visão do construtor de instrumentos pode ser idiossincrática e, mesmo, composicional. Tocar o instrumento feito por outro torna-se tocar uma composição de outro (Lansky, 1990: 108).

As etapas

O roteiro MartialmentalEX prevê as seguintes etapas, respeitando a sequência dos exercícios:

1- Respiração.

2- Boxe.

3- Movimentos circulares.

4- Percussão invisível.


Fase 1: Respiração

Descrição: de olhos fechados, o praticante inicia a prática, com a observação da própria respiração – o pulso, a constância, a durabilidade, etc. Em seguida, converge sua atenção para os batimentos cardíacos e busca coordená-los com a respiração.

Atividade prevista: um sistema de eletrocardiograma, interligado ao microchip Aduíno, será ligado ao corpo praticante. O sistema enviará os dados para o software Ableton Live (via Midi/Usb), que codificará os batimentos cardíacos em forma de sons de bateria eletrônica, que poderão ser manipulados com efeitos, recombinados, distorcidos, por exemplo.

Atividade alcançada: não foi possível ainda testar o sistema com uma máquina de eletrocardiograma real. O sistema funciona perfeitamente em simulação.

Comentários: a origem deste pensamento é fruto da colaboração com o cientista da computação Manuel Guerra, que já utiliza o sistema de eletrocardiograma interligado com o Arduíno.


Fase 2: Boxe

Descrição: em uma estação especialmente desenhada para este projeto, o praticante tem a sua frente um “saco de pancada”, bolas resistentes e outros aparatos típicos de práticas de impacto. O praticante pode “tocar” esses “instrumentos” enquanto golpeia, interagindo com a música composta especialmente para esse momento.

Atividade prevista: cada peça dessa estação contém um sensor de toque (trigger) que está ligado a um módulo de bateria eletrônica (alesis Dm4) com cabos p10. Podem-se, ainda, expandir as possibilidades e combinação de som e timbres, interligando o módulo de bateria eletrônica ao software Ableton Live.

Atividade alcançada: a interligação de triggers a um módulo de bateria eletrônica é uma tecnologia já consagrada e disponível no mercado desde os anos 90. Isso está funcionando perfeitamente e é motivo de muito entretenimento para os visitantes do laboratório. A construção da estação em si é o principal desafio desta pesquisa e está caminhando com muito êxito.

Comentários: os objetivos, nessa fase do projeto, são basicamente relativos ao som e ao impacto. Como a integração dos sensores ao módulo de bateria eletrônica é uma tecnologia que oferece bastante estabilidade, todos os desafios estão voltados para o design de uma estrutura viável, inteligente, de fácil mobilidade e, principalmente, com a resistência necessária. Esta é uma etapa comprovadamente terapêutica dentro deste projeto.

Em termos musicais, foi concebida uma música de estrutura rítmica em que o JAB (mão esquerda para direitos) soava como som de caixa de bateria, e o DIRETO (mão direita para direitos) soava como som do surdo de bateria.

Para uma maior variedade de timbres, a expansão desse sistema, para utilizar todos os recursos do software Ableton Live, já é também uma realidade, sem a necessidade do microchip Arduído, somente usando um cabo Midi/USB. Assim, os aparatos de boxe poderão se comportar como um teclado ou poderão estar ligados a um sampler, que oferece possibilidades e combinações infinitas.


Fase 3: Movimentos Circulares

Descrição: em pé, o praticante faz movimentos circulares, ascendentes e descendentes, com a parte superior do corpo – levando as mãos do alto da cabeça aos pés, toca o chão; girando o tronco, toca os tornozelos.

Atividade prevista: posicionado à frente de uma câmera de vídeo, o software openFrameworks fará um mapa do corpo do praticante, considerando as extremidades de seu corpo como uma fonte de dados. Esses dados, que variam de 0 a 100 e de 0 a -100, serão enviados para o software Ableton Live e serão ligados a um sintetizador e manipulados em termos de altura do som (pitch).

Atividade alcançada: a integração entre o openFrameworks e o Ableton Live ainda não foi totalmente bem sucedida (OSC). A pesquisa está buscando a melhor maneira de interligar esses dados e, se necessário, será feita a transposição para o software Processing.

Comentários: uma característica natural à evolução do projeto são as formas de captação de movimentos gestuais sem toque e sua codificação. Aqui, o projeto encontra um grande desafio, que é o mapeamento do corpo do praticante e a interação deste com o fundo onde ele se encontra, pois o sensor utilizado neste estágio é a câmera de vídeo interna do computador.

Nesse ponto, o leque da pesquisa se amplia e não mais temos uma relação de ligado/desligado, de dentro/fora, como no caso do sistema de toques, mas temos uma relação espacial em que os vários elementos à volta do pratica podem interferir no som que será produzido, assim como a sua posição precisa.

O ideal é que o praticante possa se movimentar, dançar e controlar o som ao mesmo tempo, enquanto a música, composta propositadamente para este estágio, estimule seus movimentos.


Fase 4: Percussão invisível

Descrição: a sensação de estar envolto por uma bolha sensorial foi um elemento chave para a realização desta pesquisa. Poder golpear o invisível, percutir um instrumento inexistente fisicamente – este é o objetivo desta fase. Em uma área previamente demarcada, o praticante se posiciona em frente à câmera de vídeo do computador, onde o sistema Isadora processa seus movimentos, permitindo que possa golpear ou percutir o ar e produzir um som.

Atividade prevista: foi desenvolvido um programa dentro do software Isadora, um sistema que permite criar módulos que enviam comandos e parâmetros para outros programas, definindo altura, tempo, duração e várias especificações de interatividade. Ele funciona muito bem com o Ableton Live.

Atividade alcançada: chegamos ao estágio em que se capta com precisão um movimento veloz como o golpe, mas devemos ainda fazer ajustes em termos da resposta sonora. Atualmente essa resposta está lenta e indefinida (erro de latência). Estão previstos testes com sensores a lazer para melhorar a eficácia da percussão invisível.

Comentários: foi durante o workshop do software Isadora, com o colaborador Fernando Rabelo, que surgiu a ideia de ampliação do espaço físico para o invisível, pois o sistema permitia esta tão sonhada interação. Esta é uma etapa muito importante no projeto, pois abre portas para diversas outras formas de interação e do fazer musical em si, podendo, até mesmo, servir como base para pesquisa com deficientes físicos e para a criação de espaços sensoriais múltiplos.


Informações Complementares:
A Interação com o Público

Considerando todas estas possibilidades de interatividade, surge agora uma nova concepção para complementar a performance ao vivo e expandir o campo de atuação do projeto MartialmentalEX.

Se, até então, só o praticante controlava os parâmetros do som, produzia ruídos e efeitos, agora pode-se instalar um sistema com um sensor voltado para público, que poderá também alterar certos aspectos pré-definidos da obra que está sendo executada no palco.

Assim, a relação artista/público acaba por ser questionada e, melhor ainda, vivenciada na prática.


A Exposição

MartialmentalEX foi concebida para ser uma performance musical de 10 a 15 minutos. Após a apresentação, os instrumentos ficarão disponíveis no espaço, para serem experimentados pelos visitantes. O nome, anteriormente concebido somente como MartialEX, ganhou mais um vocábulo devido à expansão da sensação e da experiência. Do tátil ao invisível. Numa ligação de mentes.

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REFERÊNCIAS

Lansky, P. (1990). A View from the Bus: When Machines Make Music. Perspectives of New Music, 28(2), 102-110.

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SOBRE O AUTOR

Fabiano Fonseca é músico, soundesigner e designer gráfico de Belo Horizonte.

concepção e realização co-realização patrocínio incentivo
MARGINALIA PROJECT OITOOITO ARTE.MOV LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA DE MINAS GERAIS
apoio
LABMÍDIA GRAFO
Laboratório de Artes Gráficas
Escola de Belas Artes - UFMG
LAGEAR
Laboratório Gráfico para a
Experimentação Arquitetônica
Escola de Arquitetura - UFMG
Instituto Sérgio Motta