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Medialabs, atualmente: entrevista com Marcos García Medialabs já existem há algumas décadas, com manifestações em uma diversidade de modelos, concebidos e aplicados por instituições e centros culturais, também diversificados, ao redor do mundo. Alguns dos mais reconhecidos laboratórios foram estabelecidos na America do Norte e Europa, a partir dos anos 1960, em sua maioria vinculados a universidades, governos e grandes empresas. E, enquanto alguns destes pioneiros ainda existem atualmente, o rápido crescimento mundial do numero de iniciativas em arte e tecnologia, bem como o barateamento de computadores mais velozes e outras tecnologias, facilitaram a emergência de muitas outras instituições similares, em locais com uma tradição mais recente – ou sem tradição – de desenvolvimento tecnológico criativo e independente. Nessa nova geração de medialabs, alguns temas, que, até algumas décadas atrás, eram incipientes ou inexistentes, emergem como o principal foco de debate na interseção entre tecnologia, arte, cultura e sociedade, como software livre, cultura livre, cultura em rede e os commons. Nesse contexto, o principal desafio enfrentado por estas instituições circunda a criação de estratégias para estabelecer uma ampla rede de dinâmicas colaborativas, entre comunidades de artistas, designers, desenvolvedores, cientistas e engenheiros, em nível local e global. Numa tentativa de abordar esse tema – recorrente objeto de pesquisa e reflexão da equipe do Marginalia+Lab –, a primeira edição da revista traz uma entrevista com Marcos García, responsável pela programação do Medialab-Prado, um dos medialabs mais importantes dessa nova geração, fundado em Madri no ano 2000. Marcos trabalha no centro desde 2003, tendo realizado uma grande variedade de atividades, incluindo workshops, seminários e exposições, na Espanha e outros países. No passado, juntamente com Laura Fernández, ele participou da elaboração do programa educacional e de mediação cultural que estabeleceu as bases para as atividades futuras do Medialab-Prado. Sempre aberto ao dialogo e à colaboração, Marcos nos cedeu gentilmente esta entrevista, abordando diferentes aspectos dos medialabs e seus desafios contemporâneos. Qual é a motivação geral, conectando a diversidade de atividades do Medialab-Prado? As atividades do Medialab-Prado apontam para diversos caminhos: cultura digital, artes performáticas, design interativo, visualização de dados, cultura livre, os commons, cultura em rede, videogames, aplicações educativas da tecnologia. Mas existe um terreno comum para todas elas, que é a abertura do processo de produção e pesquisa para a participação de qualquer um. Em todas elas, nós tentamos encontrar as metodologias para tornar essa abertura e essa permeabilidade possíveis. Como você descreveria sua evolução ao longo dos últimos anos? Durante os últimos anos, nós tentamos direcionar nossos esforços e recursos para gerar comunidades de realizadores. Este, é claro, é um processo lento, mas de certa forma o modelo do Medialab-Prado está consolidado e agora, quando ele está quase mudando para um novo e maior espaço, é um bom momento de olhar para trás e pensar na história e nos próximos passos. É por isto que estamos começando um grupo de trabalho chamado “Pensando e Fazendo o Medialab-Prado”, formado por colaboradores próximos e observadores externos. Como você relaciona essa linha de trabalho com aquelas desenvolvidas por outros medialabs, ao redor do mundo? Eu acho que é bem particular, no Medialab-Prado, a abordagem DIWO (do it with others – ‘faça isto com outros’) para a prototipagem aberta e colaborativa, em que o processo é aberto a qualquer um que queira participar. Participantes vêm de diferentes contextos e níveis de especialização. Experientes e iniciantes de diferentes campos colaboram no desenvolvimento de projetos. Realizadores dos projetos são não apenas artistas, mas engenheiros, programadores, designers, arquitetos, ativistas ou amadores. Como você diagnosticaria a situação atual dessas instituições em relação ao estado da cultura digital atualmente? A situação atual é muito animadora. A cultura digital e a Internet têm sido grandes fontes de inspiração para pensar novos modelos de instituições culturais ou laboratórios culturais. Existem modelos de medialabs muito interessantes ao redor do mundo. Alguns são focados em pesquisa e produção artística, alguns são ligados a universidades e educação, outros são orientados à inovação social, além disso, existem projetos independentes, como espaços-hacker, e outros são mantidos por grandes corporações. Qual você acha que é a relevância de iniciativas de software livre, código aberto e creative commons para a relação atual entre arte, tecnologia, cultura e sociedade? Eu acho que a relevância do software livre como uma produção colaborativa aberta (livre) é enorme. O software livre e a Internet são um ponto de partida para projetos fantásticos, como a Wikipedia ou o Creative Commons e movimentos como o Open Data ou Open Access. Dois livros recentes analisam as implicações do Software Livre em diferentes esferas: “Two Bits. The Cultural Significance of Free Software”, de Chris Kelty e “The Viral Spiral”, de David Bollier. Em relação ao Medialab-Prado, nós gostamos de pensar que tentamos emular o que está acontecendo na Internet e em projetos como a Wikipedia, mas também no espaço físico de um centro cultural. No relatório “Pathways to Innovation in Digital Culture”, de 1999, Michael Century argumenta que, em função da redução de preços de equipamentos, não seria tão importante para um “ateliê-laboratório” oferecer o melhor e mais potente conjunto de equipamentos para seu público, mas, sim, oferecer um espaço capaz de acomodar um amplo espectro de dinâmicas colaborativas. Você considera que isso realmente se aplica ao contexto atual? Qual é para você o papel de medialabs como o Medialab-Prado atualmente? Eu concordo completamente. Isso era verdade em 1999, quando Michal Century escreveu seu ensaio e é ainda mais claro atualmente. Um espaço físico, conexão de Internet, alguns computadores e um projetor seriam mais que o suficiente para começar um medialab. A única coisa realmente necessária é uma comunidade de pessoas que queira estar junto e experimentar. Infelizmente, com frequência governos gastam muito dinheiro com prédios e equipamentos, mas não focam seu esforço em gestar algo junto com as comunidades. Tendo organizado atividades do Medialab-Prado em muitos lugares diferentes na Europa, Américas do Norte e do Sul, como você avalia as diferentes realidades culturais e tecnológicas desses lugares? No norte da Europa, Canadá e Estados Unidos existe uma tradição mais antiga de experimentação com meios. Isso é muito claro nas universidades e programas de mestrado. Mas, ao passo em que a tecnologia está se tornando mais acessível, têm surgido fenômenos fantásticos na América Latina e também na Espanha. Esses fenômenos estão conectados com a cultura livre, movimentos sociais e hacktivismo. Você imagina que adaptações devem ser feitas para lidar com essa diversidade local? Eu acho que a cultura digital e a Internet são de grande interesse, porque oferecem um laboratório para a produção colaborativa e um conjunto de ferramentas que pode ser adotados localmente. Queremos acreditar que o Medialab-Prado desenvolveu algumas metodologias que podem ser aplicadas em diferentes contextos, com algumas adaptações. Essas adaptações ou inovações seriam feitas pelas comunidades locais e, então, compartilhadas globalmente, para que possam ser aplicadas em outros lugares. Considerando a evolução e o futuro desses laboratórios, qual você acredita ser a melhor forma de lidar com a necessidade permanente de se adaptar a uma realidade em rápida transformação? Aqueles laboratórios mais enraizados na comunidade, que são parte de uma rede de colaboração, que não fazem enormes investimentos em equipamentos, mas criam contextos para o compartilhamento de conhecimento, interação social e experimentação colaborativa serão os que terão mais chances de se adaptar à realidade em transformação. Eu diria mais: esses laboratórios seriam capazes de criar novas realidades. Realidades em que participantes são mais conscientes e têm mais controle sobre os contextos de seu entorno. * Entrevista realizada por email, em inglês, entre os meses de abril e maio de 2010. Tradução: André Mintz. |
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